Doença do Carrapato em Cães: Sintomas, Tratamento e Como Prevenir
Erliquiose e babesiose são silenciosas e rápidas. Um único carrapato pode colocar a vida do seu cão em risco em menos de uma semana. Saiba reconhecer os sinais e agir a tempo.
Todo tutor já tirou um carrapato do pelo do seu cão e pensou: "pronto, problema resolvido". Mas o problema, muitas vezes, já havia começado. As doenças transmitidas por carrapatos — principalmente a erliquiose e a babesiose — estão entre as causas mais frequentes de morte súbita em cães no Brasil, e o pior: os sintomas iniciais são facilmente confundidos com um simples cansaço.
Segundo dados do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), as hemoparasitoses transmitidas por carrapatos respondem por cerca de 30% dos casos de emergência veterinária em regiões tropicais e subtropicais do país. A boa notícia é que, detectadas precocemente, essas doenças têm tratamento eficaz. A má notícia é que, na fase crônica, o prognóstico pode ser grave.
Este guia reúne o que tutores, estudantes de veterinária e profissionais da saúde animal precisam saber sobre as doenças do carrapato: do mecanismo de transmissão ao comparativo de antiparasitários disponíveis no mercado.
O que é a "doença do carrapato": erliquiose x babesiose
O termo popular "doença do carrapato" engloba, na verdade, diferentes infecções transmitidas por carrapatos — sendo as duas mais prevalentes no Brasil a erliquiose canina e a babesiose canina. Ambas afetam o sangue, mas de formas distintas.
Erliquiose Canina (Ehrlichia canis)
Causada pela bactéria Ehrlichia canis, a erliquiose é transmitida principalmente pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus — o famoso carrapato marrom do cão — durante a picada. A bactéria invade os monócitos (células brancas do sangue), comprometendo o sistema imunológico e causando uma cascata inflamatória que afeta múltiplos órgãos.
A erliquiose é endêmica em praticamente todo o território brasileiro. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária (2022) estimou prevalência de anticorpos contra E. canis em até 45% dos cães urbanos testados em algumas regiões do Sudeste.
Babesiose Canina (Babesia spp.)
A babesiose é causada por protozoários do gênero Babesia, principalmente Babesia vogeli no Brasil. Esses parasitas invadem e destroem as hemácias (glóbulos vermelhos), provocando anemia hemolítica grave — às vezes em questão de dias.
Diferente da erliquiose, que pode ser mais arrastada, a babesiose tende a provocar colapso agudo rápido, especialmente em filhotes e cães sem histórico de exposição anterior. A transmissão também ocorre pelo Rhipicephalus sanguineus e pelo Dermacentor variabilis.
Sintomas por fase: aguda, subclínica e crônica
A erliquiose, em particular, evolui em três fases bem definidas. Reconhecer em qual fase o animal se encontra é fundamental para o prognóstico e a escolha do protocolo terapêutico.
| Fase | Duração | Principais Sintomas | Achados Laboratoriais |
|---|---|---|---|
| Aguda | 1 a 4 semanas após a picada | Febre (até 41°C), apatia, perda de apetite, linfonodomegalia, corrimento ocular e nasal, tosse seca | Plaquetopenia (plaquetas baixas), leucopenia leve, anemia moderada |
| Subclínica | Semanas a anos (cão parece saudável) | Ausência de sintomas visíveis; o animal é portador assintomático | Plaquetopenia persistente; sorologia positiva; medula óssea comprometida |
| Crônica | Meses a anos sem tratamento | Emagrecimento grave, sangramento espontâneo (gengivas, nariz, urina), edema de membros, problemas renais, cegueira, convulsões | Pancitopenia severa, hiperglobulinemia, insuficiência renal, aplasia de medula |
A babesiose, por sua vez, costuma ter apresentação aguda intensa, com anemia hemolítica, icterícia (mucosas amareladas), hemoglobinúria (urina avermelhada ou marrom-escura) e colapso circulatório. Em cães jovens, pode levar ao óbito em 24 a 48 horas sem intervenção veterinária.
Diagnóstico: hemograma e sorologia
O diagnóstico das hemoparasitoses exige uma combinação de avaliação clínica, exames laboratoriais e, em alguns casos, exames de imagem. Nenhum exame isolado é suficiente para confirmar o caso.
1. Hemograma Completo
O primeiro exame solicitado em qualquer suspeita de doença do carrapato. Os achados clássicos incluem:
- Trombocitopenia (plaquetas abaixo de 100.000/µL) — presente em mais de 80% dos casos de erliquiose
- Anemia normocítica normocrômica na erliquiose; anemia hemolítica com anisocitose na babesiose
- Leucopenia na fase aguda; leucocitose possível na fase crônica
- Hiperglobulinemia — sinal de cronicidade
A médica veterinária Dra. Letícia Fontes, professora de Clínica de Pequenos Animais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), explica: "O hemograma é o primeiro radar que acende. Plaquetas abaixo de 100 mil, associadas a histórico de exposição a carrapatos e sinais clínicos, já justificam iniciar tratamento empírico antes mesmo da sorologia chegar."
2. Sorologia (RIFI e ELISA)
A Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI) é o método de referência para detecção de anticorpos contra Ehrlichia canis. Títulos acima de 1:40 são considerados suspeitos; acima de 1:80, confirmatórios. O ELISA também é amplamente utilizado.
Para a babesiose, a RIFI detecta anticorpos contra Babesia spp. com alta sensibilidade. Em casos agudos, o exame de esfregaço sanguíneo pode mostrar as formas intraeritrocitárias do parasita — o chamado "piroplasma" — dentro dos glóbulos vermelhos.
3. PCR (Reação em Cadeia da Polimerase)
O exame de PCR detecta o material genético do parasita e é especialmente útil nos primeiros dias da infecção, antes que os anticorpos se formem em quantidade suficiente para a sorologia. É o exame mais sensível disponível, embora de custo mais elevado.
4. Bioquímica e Função Renal
Em casos de suspeita de doença crônica ou envolvimento renal, o veterinário solicitará bioquímica sérica (ureia, creatinina, ALT, fosfatase alcalina) e urinálise para avaliar o grau de comprometimento dos órgãos.
Tratamento e prognóstico
Erliquiose: Doxiciclina como pilar
O tratamento de escolha para a erliquiose canina é a doxiciclina, um antibiótico do grupo das tetraciclinas. O protocolo padrão é:
- Doxiciclina: 5 a 10 mg/kg a cada 12 horas, via oral, por 28 dias (fase aguda) ou até 60 dias (fase crônica)
- Em casos graves com plaquetas muito baixas: corticosteroide em dose imunossupressora por 3 a 5 dias para controlar a destruição imunomediada de plaquetas
- Suporte: fluidoterapia, transfusão de sangue ou plasma em casos de hemorragia grave
A resposta ao tratamento na fase aguda é rápida: a febre cede em 24 a 48 horas e as plaquetas começam a se recuperar em 7 a 14 dias. Na fase crônica, a recuperação é lenta e pode ser incompleta se houver aplasia de medula.
Babesiose: Dipropionato de Imidocarb
O tratamento padrão para babesiose é o dipropionato de imidocarb, aplicado em dose única (ou duas doses com 14 dias de intervalo) por via intramuscular, na dose de 6,6 mg/kg. O medicamento causa destruição dos protozoários dentro das hemácias.
Casos graves com anemia intensa podem requerer:
- Transfusão de sangue total
- Oxigenoterapia
- Internação e monitoramento intensivo
O Dr. Rodrigo Teixeira, médico veterinário especialista em Clínica Médica de Pequenos Animais pelo Hospital Veterinário da USP, alerta: "O erro mais comum é interromper a doxiciclina assim que o cão melhora. O ciclo de 28 dias não é negociável. Interromper antes garante recidiva e, pior, abre espaço para resistência."
Além do tratamento medicamentoso, é fundamental garantir que o ambiente do animal seja tratado contra carrapatos simultaneamente — caso contrário, o cão pode ser reinfectado antes mesmo de concluir o tratamento. Se você está planejando adotar um animal ou já tem um pet em casa, confira nosso guia sobre o orçamento real do primeiro ano com um cachorro ou gato — lá incluímos os custos de consultas veterinárias e antiparasitários.
Prevenção: comparativo de antiparasitários
A prevenção é, sem dúvida, a estratégia mais eficaz — e mais barata — no manejo das doenças transmitidas por carrapatos. Hoje o mercado oferece três grandes categorias de antiparasitários para cães, cada uma com vantagens e limitações.
| Tipo | Exemplos | Duração | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|---|
| Coleira | Seresto, Scalibor | 4 a 8 meses | Longa duração, repelência (não apenas mata), prático para tutores que esquecem doses | Pode irritar pele sensível; eficácia reduzida em cães que nadam frequentemente; custo inicial alto |
| Comprimido oral | Bravecto, NexGard, Simparica | 1 a 3 meses | Alta eficácia comprovada, sem resíduo tópico, não afetado por banho ou natação | Não repele (mata após a picada), exige consulta veterinária para prescrição, custo por dose |
| Pipeta (spot-on) | Frontline, Advantix, Revolution | 1 mês | Fácil aplicação, custo acessível, disponível sem receita em vários produtos | Eficácia reduzida após banho nos primeiros 48h; contato com crianças deve ser evitado até secar; alguns produtos sem ação repelente |
Qual escolher?
A escolha ideal depende do perfil do animal e do tutor:
- Cães que frequentam áreas de mata ou campo: combinação de coleira (repelência) + comprimido oral (morte sistêmica) oferece proteção dupla
- Cães que nadam com frequência: comprimido oral é a melhor opção, pois não é afetado pela água
- Tutores com orçamento mais apertado: pipeta mensal é eficaz se aplicada corretamente e sem banho nos primeiros 2 dias
- Filhotes e cães senescentes: sempre consultar o veterinário antes de escolher, pois algumas moléculas têm restrições de idade e peso
Controle do ambiente: a etapa que tutores ignoram
Tratar o cão sem tratar o ambiente é como fechar uma torneira com a pia já transbordando. Uma fêmea de Rhipicephalus sanguineus pode colocar até 4.000 ovos no ambiente — em frestas de piso, rodapés, jardim, canil e até dentro da casa. O ciclo completo do carrapato dura de 2 a 6 meses dependendo da temperatura e umidade.
Medidas essenciais de controle ambiental
- Lavagem e aspiração semanal do canil, cama e áreas de descanso do animal
- Acaricida ambiental (sprays ou fumigantes à base de permetrina, cipermetrina ou deltametrina) aplicado a cada 21 dias por pelo menos 3 ciclos
- Poda regular de grama e arbustos — ambientes com vegetação alta são o habitat preferido dos carrapatos
- Evitar contato com animais errantes sem histórico de antiparasitários
- Inspeção pós-passeio: sempre verificar o cão ao voltar de parques, praias e áreas verdes
Se o seu cão já foi diagnosticado com erliquiose ou babesiose e você está pensando em adotar um segundo animal para fazer companhia a ele durante a recuperação, leia antes o nosso artigo sobre a regra 3-3-3 de adaptação de cães e gatos adotados — a introdução precisa ser feita com cuidado redobrado quando um dos animais está em tratamento.
Como remover um carrapato corretamente
Caso encontre um carrapato fixado no animal, remova-o com uma pinça de ponta fina ou removedor específico para carrapatos:
- Segure o carrapato o mais próximo possível da pele, sem apertar o corpo
- Puxe com movimento firme e reto — sem torcer
- Deposite o carrapato em álcool 70% ou água sanitária (nunca amasse com os dedos)
- Desinfete o local com álcool e lave as mãos
- Anote a data da remoção e monitore o animal por 30 dias
Conclusão: prevenção vale mais do que qualquer tratamento
A doença do carrapato é uma das ameaças mais sérias — e mais preveníveis — à saúde dos cães no Brasil. Erliquiose e babesiose podem progredir de um simples cansaço a uma emergência com risco de vida em questão de dias. A diferença entre um caso tratável na fase aguda e um quadro crônico devastador é, muitas vezes, apenas o tempo entre os primeiros sinais e a consulta veterinária.
A mensagem é simples: antiparasitário em dia, consulta veterinária semestral e inspeção diária do pelo são os três pilares que todo tutor pode colocar em prática — independentemente do orçamento. Animais que vivem em áreas de risco ou têm acesso a ambientes externos devem ter essa rotina redobrada.
Se você ainda não tem um pet mas está considerando adotar, saiba que cães adotados de rua ou de abrigos podem ter histórico de exposição a carrapatos e precisar de triagem completa antes de chegar ao novo lar. Visite nossa página de adoção de animais e conheça os pets que aguardam uma família — todos são acompanhados por equipes de saúde animal que garantem os cuidados básicos antes da adoção.
Com informação, prevenção e acompanhamento veterinário regular, a doença do carrapato pode — e deve — ser mantida longe da vida do seu melhor amigo.
Artigo revisado com base em diretrizes do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e literatura científica brasileira sobre hemoparasitoses caninas. As informações aqui apresentadas não substituem a consulta médico-veterinária.